top of page

Abuso sexual sem conjunção carnal é possível?

Foto do escritor: Richardson Lima
Richardson Lima
3 de out.
3 min de leitura

A resposta é simples: sim, é possível.


Apesar disso, muitas pessoas ainda acreditam que uma violência sexual só acontece quando há penetração vaginal. Essa ideia é incorreta e pode fazer com que as vítimas deixem de receber proteção, tratamento e acesso à Justiça.


Criança escondendo o rosto entre as mãos
Muitas crianças têm dificuldade em revelar os abusos sofridos

Compreender o que caracteriza o abuso sexual é fundamental para pais, educadores, profissionais da saúde e toda a sociedade.

 

O que significa conjunção carnal?


A expressão "conjunção carnal" é um termo jurídico tradicionalmente utilizado para se referir à penetração do pênis na vagina. Contudo, a violência sexual é muito mais ampla do que isso.


A legislação brasileira passou a considerar que diversos atos de natureza sexual podem produzir danos tão graves quanto aos decorrentes da conjunção carnal.


Um policial levando um homem algemado
Abusos sexuais em menores de 14 anos não são relativizados

Atualmente, a prática de qualquer ato libidinoso com criança menor de 14 anos configura crime, independentemente da ocorrência de penetração. Do ponto de vista psicológico, essa ampliação faz sentido. O sofrimento emocional de uma vítima não depende exclusivamente do tipo de contato físico sofrido, mas também da quebra de confiança, do medo, das ameaças utilizadas pelo agressor e da forma como a violência é percebida pela criança.

 

O que é considerado abuso sexual?


O abuso sexual é uma forma de violência na qual uma pessoa utiliza outra para obter satisfação sexual sem que exista consentimento válido, livre e consciente.


No caso de crianças, a situação ainda é mais clara: crianças não possuem maturidade psicológica e desenvolvimento suficiente para consentir com práticas de natureza sexual. Por isso, qualquer ato sexual praticado contra uma criança é considerado abusivo, independentemente de ela oferecer resistência, permanecer em silêncio ou aparentar não compreender o que está acontecendo.


Entre os comportamentos que podem configurar abuso sexual estão:

  • Tocar as partes íntimas da criança;

  • Fazer a criança tocar o corpo ou os órgãos genitais do agressor;

  • Obrigar a vítima a assistir atos sexuais;

  • Expor a criança a conteúdos pornográficos;

  • Tirar fotografias ou gravar vídeos com finalidade sexual;

  • Fazer comentários sexualizados sobre o corpo da vítima;

  • Beijos provocados com conotação sexual;

  • Masturbação na presença da criança;

  • Solicitar imagens íntimas pela internet;

  • Entre muitos outros.


Em nenhuma dessas situações há necessidade de conjunção carnal para que o ato se caracterize como violência sexual.

 

A ausência de lesões físicas significa que não houve abuso?


Não.


Essa é uma das maiores dificuldades enfrentadas em investigações de violência sexual contra crianças e adolescentes. Muitas modalidades de abuso sexual não permitem marcas corporais permanentes. Além disso, algumas lesões podem cicatrizar rapidamente ou serem de difícil relação com um abuso sexual, como a penetração anal, por exemplo.


Uma ginecologista conversando com uma mãe e uma criança
Nem sempre os abusos sexuais deixarão vestígios detectáveis pela medicina legal

Em situações de exposição à pornografia, manipulação de órgãos genitais sobre roupas, carícias íntimas ou atos praticados sem emprego de força física, é comum que exames médicos não identifiquem vestígios materiais.


Isso não significa que a violência não tenha acontecido. Nesses casos, outros elementos podem contribuir para a investigação, como relatos espontâneos da vítima, testemunhos, mensagens eletrônicas, imagens, mudanças comportamentais e avaliações especializadas, incluindo a perícia psicológica .

 

Por que esse tema ainda gera dúvidas?


Durante muito tempo, a sociedade associou a violência sexual exclusivamente ao estupro.  Essa visão limitada contribuiu para minimizar outras formas de abuso e dificuldade de reconhecimento do sofrimento das vítimas.


Infelizmente, ainda é comum ouvir frases como:

"Mas ele só passou a mão."

"Não teve relação, então não foi tão grave."


Essas afirmações podem aumentar o sofrimento da vítima e prejudicar revelações futuras. A gravidade de uma violência sexual não deve ser medida apenas pela existência de lesões físicas, mas também pelo impacto que ela provoca na saúde emocional, no desenvolvimento psicológico e na sensação de segurança da criança ou do adolescente.

 

O que fazer diante de uma suspeita?


Caso uma criança ou adolescente relacione uma situação de natureza sexual, é importante acolher a informação com calma e sem julgamentos. Evite perguntas sugestivas, não pressione por detalhes e demonstre que a vítima fez algo certo ao procurar ajuda.


Mãe preocupada conversando com uma criança triste
Acolher o relato da criança sem julgamentos é um passo importante para a recuperação emocional

A investigação sobre a ocorrência de violência e a responsabilização do agressor cabe às autoridades competentes. O papel da família, da escola e da comunidade é garantir proteção, apoio emocional e encaminhamento adequado aos serviços especializados.


Mais importante do que perguntar se houve conjunção carnal é compreender que nenhuma criança deve ser exposta a comportamentos de natureza sexual por parte de adultos ou adolescentes mais velhos. Toda forma de exploração sexual infantil merece atenção, acolhimento e resposta imediata da sociedade.


Em caso de suspeita de violência contra uma criança ou adolescente, ligue para o Disque 100 ou procure o Conselho Tutelar de sua região.

 
 
 

Comentários


bottom of page