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A maioria dos casos de violência sexual infantil acontece dentro de casa: o que pais e responsáveis precisam saber

Foto do escritor: Richardson Lima
Richardson Lima
há 2 dias
4 min de leitura

Quando pensamos em violência sexual contra crianças e adolescentes, muitas pessoas imaginam um agressor desconhecido, abordando a vítima em locais públicos. No entanto, a realidade é muito diferente e mais difícil de enfrentar.


Dados de instituições oficiais mostram que, na maioria dos casos, o autor da violência é alguém conhecido da criança, muitas vezes pertencente à própria família ou ao círculo de convivência. Essa constatação reforça a necessidade de ampliar o diálogo sobre prevenção, proteção e fortalecimento dos vínculos familiares.

 

O que é violência sexual intrafamiliar?


Uma figura sombria na porta do quarto
A maioria dos abusos infantis é cometida por um familiar

A violência sexual intrafamiliar ocorre quando o abuso é cometido por uma pessoa que faz parte da família ou mantém uma relação de convivência próxima com a criança ou o adolescente. O agressor pode ser, por exemplo:

  • pai;

  • padrasto;

  • mãe;

  • avô ou avó;

  • tio;

  • irmão;

  • primo;

  • responsável legal.


Essa característica torna o abuso ainda mais complexo, pois envolve relações de confiança, dependência emocional e, muitas vezes, financeira.


Também é comum que o autor seja uma pessoa de confiança da família, como um vizinho, amigo próximo ou cuidador. Nestes casos, a violência se caracteriza como extrafamiliar.


O que dizem as estatísticas?


Os dados brasileiros são consistentes ao apontar que a violência sexual infantil ocorre, predominantemente, dentro de casa ou em ambientes familiares.


Segundo o Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes, elaborado pelo UNICEF em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre 2017 e 2020 foram registrados cerca de 180 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. O estudo destaca que a maioria das ocorrências aconteceu na residência da vítima e que, nos casos em que foi possível identificar o autor, 86% dos agressores eram pessoas conhecidas da criança ou do adolescente.


Mais recentemente, a segunda edição do Panorama, publicada em 2024, analisou dados de 2021 a 2023 e registrou 164.199 vítimas de estupro e estupro de vulnerável entre crianças e adolescentes de 0 a 19 anos em todo o país. O relatório reafirma que a violência sexual contra crianças ocorre, com frequência, dentro do ambiente doméstico e praticada por pessoas próximas à vítima.


Gráficos estatísticos do Anuário
Os dados do Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes mostram a triste realidade no Brasil

 

Por que o ambiente familiar pode favorecer o silêncio?


É difícil imaginar que alguém responsável pelo cuidado de uma criança possa cometer esse tipo de violência. Justamente por isso, muitos casos permanecem ocultos durante anos.

Capa do livro Manipulação Emocional
Abordo o tema da Manipulação Emocional neste e-book

A criança frequentemente ama o agressor, depende dele para sobreviver, tem medo de não ser acreditada, sente culpa pelo que aconteceu e é ameaçada para manter segredo.


Além disso, em muitos casos, o agressor utiliza manipulação emocional, presentes, chantagens ou ameaças para impedir que a vítima conte o que está acontecendo. Esse processo é conhecido como grooming, uma estratégia de manipulação que busca conquistar a confiança da criança antes de iniciar os abusos.

 

Por que a maioria dos abusos não é praticada por desconhecidos?


Pessoas que convivem diariamente com a criança possuem mais oportunidades para:

  • permanecer sozinhas com ela;

  • conquistar sua confiança;

  • manipular seus sentimentos;

  • convencer a criança de que o abuso é "normal";

  • impedir que ela revele o que aconteceu.


Por isso, campanhas de prevenção têm enfatizado que proteger crianças não significa apenas alertá-las sobre estranhos, mas também ensinar que qualquer pessoa deve respeitar seus limites corporais.

 

O silêncio é um dos maiores obstáculos


Infelizmente, muitos casos permanecem sem denúncia. O medo das consequências, a dependência emocional, a vergonha, o sentimento de culpa, o receio de desestruturar a família e a dificuldade da criança em compreender que está sendo vítima de violência são fatores que contribuem para o silêncio da vítima.


Especialistas ressaltam que a subnotificação faz com que os números oficiais provavelmente representem apenas uma parte da realidade.

 

Quais sinais podem indicar que algo está errado?


Nenhum comportamento isolado confirma a existência de abuso. Entretanto, mudanças importantes merecem atenção. Alguns sinais podem incluir:

  • alterações bruscas de comportamento;

  • medo intenso de determinada pessoa;

  • isolamento;

  • regressão comportamental (como voltar a fazer xixi na cama);

  • ansiedade;

  • dificuldades escolares;

  • sexualização incompatível com a idade;

  • tristeza persistente;

  • pesadelos frequentes.


Sempre que houver suspeitas, é fundamental acolher a criança sem pressioná-la ou fazer perguntas sugestivas.

 

Como proteger crianças e adolescentes?


A prevenção começa dentro de casa. Algumas atitudes fazem diferença:


Ensine segurança corporal

A criança deve aprender que seu corpo pertence a ela e que ninguém pode tocar suas partes íntimas sem necessidade de cuidado ou saúde.

 

Incentive o diálogo

A criança precisa saber que pode contar qualquer situação aos adultos de confiança sem medo de ser julgada. Frases "Você nunca estará em apuros por me contar a verdade." ou "Sempre vou acreditar em você e procurar ajudá-la." são suficientes para encorajá-la.

 

O papel da escola e dos profissionais


Capa do livro "guia prático para educadores"
Este guia traz informações essenciais aos educadores que se deparam com a violência contra crianças e adolescentes

Escolas, profissionais de saúde e demais instituições desempenham papel essencial na identificação precoce da violência. Mudanças comportamentais, relatos espontâneos ou sinais físicos podem indicar a necessidade de encaminhamento aos órgãos de proteção.


Por isso, a integração entre família, escola, rede de saúde e sistema de proteção é fundamental para interromper ciclos de violência.


Veja como fazer isso da forma correta no meu livro “Proteção e prevenção no ambiente escolar: guia prático para educadores”

 

Conclusão


Reconhecer que a maioria dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes ocorre no ambiente intrafamiliar é um passo importante para fortalecer a prevenção.


Quanto mais informadas estiverem as famílias, maior será a capacidade de criar ambientes seguros, incentivar o diálogo e identificar precocemente situações de risco.


Proteger crianças não significa ensiná-las a viver com medo, mas ajudá-las a compreender que seu corpo merece respeito, que elas têm direito de dizer "não" e que sempre encontrarão adultos dispostos a ouvi-las e protegê-las.

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